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terça-feira, 30 de julho de 2013

A DOMADORA DE GANSOS - Frances Clarke Sayers


A DOMADORA DE GANSOS 
Por 
Frances Clarke Sayers 
                   - Vovô Lauro, onde estão os miosótis? perguntou Lucinda, na manhã seguinte à sua chegada. Olhei por todo o jardim e não vi nenhuma flor por lá... 
                  - Ah! sua dorminhoca...  disse Vovô. À noite passada, quando passamos pelo campo, você estava dormindo. As flores nascem lá, e como fica perto daqui, esta tarde, quando eu voltar da reunião, talvez leve você para vê-las. 
                  Lucinda vivia numa cidade grande e, pela primeira vez, estava  visitando seus avós, que moravam no interior do Estado. Eram sempre eles que a iam visitar na cidade, mas este ano o pai de Lucinda a deixara passar uns tempos com a Vovó e o Vovô. Ela já  estava com seis anos. Sempre que os avós a visitavam, falavam numa florzinha azul que nascia em suas terras. Lucinda nunca vira miosótis e estava agora curiosa.   
                   Depois do almoço, Vovô Lauro pegou-a pela mão e levou-a para ver a fazenda. Era uma fazendola apertada entre colinas, com a sua casinha branca, o celeiro vermelho e o grande cata-vento espetado no alto da colina maior.
                   Havia três vacas, um bando de galinhas brancas e uma porção de porquinhos pretos. 
                   No todo de uma das colinas, estavam as alas de figueiras. Olhando para o lado direito da colina, Lucinda avistou a represa da nascente, onde cinco gansos brancos nadavam e passeavam pela margem. 
                     - Gansos! disse Lucinda. Vamos descer para vê-los! Mas Vovô Lauro impediu-a de correr pela colina abaixo. 
                     - Não, não, Lucinda! avisou ele. Você não deve aproximar-se dos gansos. Eles são muito bonitos, mas muito bravos. Quando vou levar-lhes comida, atacam e me escorraçam a bicadas. Esticam os pescoços compridos e avançam para beliscar. Todos os outros animais são meus amigos, mas esses gansos... Eles são terríveis! Fique longe deles, está bem? 
                     Lucinda chamou-os de longe. 
                     - Alô, gansos! disse ela. 
                     Nenhum deles virou sequer a cabeça em sua direção. 
                     - É uma pena que eles sejam assim, Vovô. Eu acho que gostaria de gansos... 
                     Naquela tarde, enquanto Vovô foi à reunião e Vovó fazia sua sexta no sofá estofado com crina de cavalo, Lucinda pegou  a sua caixinha de música e saiu para o pomar de figueiras.
Vovô e Vovó tinham lhe dado aquela caixinha quando ela fizera seis anos, alguns meses antes. 
                     Na tampa da caixa havia  uma pastora de cabelos soltos e louros. Ela estava sentada debaixo de uma árvore, tocando uma flautinha. 
                     Lucinda subiu pelo tronco liso de uma das árvores maiores. Estava fresco lá em cima, à sombra das folhas largas. Um pouco abaixo, perto do lago da represa, estavam os gansos. Eram uma beleza à luz do sol. O maior dos gansos, o macho, estava quieto, de pé numa de suas patinhas amarelas, com a cabeça debaixo da asa. Um dos outros beliscava a lama doce da lagoa, abanando a cauda com satisfação. Outro se esponjava  na terra seca e com as asas levantava uma nuvenzinha de poeira à sua volta. 
                    - Seus velhos bravos! gritou Lucinda lá do alto. 
                    De repente, ela viu qualquer coisa mover-se pela colina abaixo, em direção ao lago. Era Barnabé, o gato da Vovó. Ele cheirava o ar, e devagarinho, bem devagarinho, pé ante pé, foi descendo. Lucinda ficou a olha-lo. Lá ia ele, sem barulho, com o andar característico dos gatos, pé cá, pé lá... Chegou, sem ruído algum, a uma moita de capim. Ai ficou agachadinho, com a cauda ondulante, olhos brilhantes, esperando, esperando...
                    Súbito, o ganso maior, o macho, sacudiu a cabeça, tirando-a de debaixo da asa e baixou a outra patinha escondida. Ele avistou Barnabé. Grasnando para os outros, partiu para cima do gatinho,  de asas abertas. 
                    Um terrível assobio saia do seu bico. Barnabé virou-se e como um raio correu colina acima. Quanto mais depressa corria o gato,mais corriam os gansos, beliscando a ponta do rabo de Barnabé, que miava de dor. 
                    Lucinda desceu da árvore e correu aos gritos: 
                    - Chôoo... Chôoo... e abanava os braços no ar, procurando assustar os gansos. 
                    Tropeçou e caiu, largando a caixinha de música, a sua bonita caixa prateada! Essa foi rolando, rolando pelo declive da colina. Toda a vez que o botão tocava o chão, a música se fazia ouvir. 
                    Quando Lucinda tomou fôlego, já Barnabé estava trepado no tronco para livrar-se dos gansos. 
  Estes já não estavam furiosos. Parados, esticavam os pescoços, sacudiam as penas, moendo as cabeças para um lado e para outro, procurando alguma coisa perdida no ar.  Foi então que Lucinda se lembrou da figura na tampa da caixa de música: a pastora com os gansos ao seu redor...
                    - Ah! Então é de música que eles gostam... Foi isso que os fez parar, disse ela. 
                    Levantou-se e correu a apanhar a caixinha de música, que,embora estivesse um pouco amassada pela queda, ainda fazia soar a sua melodia. Lucinda deu-lhe corda e a música singela encheu o ar, mais forte, mais alegre que nunca. Um a um, os terríveis gansos alinharam-se atrás do macho e marcharam atrás de Lucinda. 
                    Ela desceu a colina e deu volta à lagoa. E em redor, para cima e para baixo, lá iam os gansos sempre a segui-la . Entrou no pomar e no seu rastro iam os gansos. Cruzou por entre as figueiras e os animais a seguiam, enfeitiçados pela música. 
                    Assim que Barnabé notou a mudança, esqueceu a cauda machucada , desceu da árvore e veio juntar-se à fila, seguindo atrás  dos gansos. Lucinda voltou-se para ver a cauda ondulante de Barnabé no fim da fila, e não pode deixar de rir, satisfeita com o seu sucesso. Levou-os até o celeiro e daí trouxe-os para casa. 
                    Vovó Maria veio à porta. Lá estava Lucinda comandando os cinco gansos e o gato, andando em volta do canteiro das rosas. 
                    - Ah! Lucinda, sua feiticeirinha! disse ela.  
                    Nesse momento, Vovô vinha chegando com as mãos atrás das costas. Lucinda marchou com a sua permissão em direção do avô. 
                   - Olhe o batalhão! Ra-ta-plaã-plã-plã... cantava ela. Vovô arregalou os olhos de surpresa.
                   - Você conseguiu domá-los! disse ele espantado e encantado ao mesmo tempo. 
                   Batendo os calcanhares e perfilando-se, levantou a mão escondida, empunhando um lido ramo de miosótis, que ofereceu a ela. 
                    - Miosótis para Lucinda! disse ele. Para Lucinda que domou os gansos. Vamos todos marchar...
                    E juntou-se ao grupo, marchando atrás do ganso cinzento. 
                    - Venha, Vovó... Chamou Lucinda contente.
                    - Pois eu vou, respondeu ela resoluta, tirando o avental para desfralda-lo como bandeira.
                    E assim foram eles: Lucinda, e os cinco gansos, Barnabé abanando a cauda, Vovô e os miosótis e Vovó com o avental fazendo de bandeira. Andaram em volta dos canteiros e foram para o lago. Lá deixaram os gansos, agora comportados. Estes ficaram quietos ali à beira do lago, sem compreender o que havia acontecido. 
                   Naquela tarde, depois do lanche, Vovô levou Lucinda na charrete, para ver o campo florido de miosótis. Lá, ela viu as florzinhas azuis espalhando-se pelas colinas e campos até o horizonte, como cascatas de águas azuis. Milhares e milhares de flores...
                   - Agora eu já sei, disse Lucinda, as miosótis são tantas, que você e Vovô não precisam viver na cidade perto do mar. Vocês já tem um aqui, brilhando como se fosse de verdade, num dia de sol!
                     E é esta a história de como Lucinda viu as miosótis formarem  um mar de flores e como descobriu por que a pastora tocava flauta para seus gansos, na tampa da caixinha de música.
NOTA: Esta historinha   foi extraída de Bluebonnets for Lucinda, e adaptada  pela escritora Diva de Souza Coelho.
Nicéas Romeo Zanchett 
 
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